As eleições de 2026 redesenharam de maneira significativa o mapa político do Sul Fluminense. E talvez nenhuma comparação seja tão evidente quanto aquela que pode ser feita entre Volta Redonda e Barra Mansa.
Volta Redonda chega à próxima legislatura com três deputados estaduais diretamente vinculados à cidade: Munir Neto, Jari Oliveira e Raone Ferreira. Munir foi reeleito com 52.808 votos; Jari também garantiu novo mandato, com 34.199; enquanto Raone, com 28.377 votos, conquistou pela primeira vez uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Barra Mansa, por outro lado, não conseguiu eleger um representante próprio.
Rodrigo Drable recebeu 28.038 votos e ficou fora da nova composição da Alerj. É um número que merece atenção: foram apenas 339 votos a menos que a votação obtida por Raone Ferreira. Evidentemente, uma eleição proporcional não é uma disputa individual na qual simplesmente entram os 70 candidatos mais votados. O desempenho dos partidos e federações interfere diretamente na distribuição das cadeiras. Ainda assim, a proximidade dos números torna o resultado particularmente amargo para Barra Mansa.
Não se pode dizer que Rodrigo tenha sofrido uma derrota eleitoral humilhante. Pelo contrário. Conquistar mais de 28 mil votos para deputado estadual demonstra existência de capital político. O problema é que, em política, existe uma diferença enorme entre 28 mil votos com mandato e 28 mil votos sem mandato.
E essa diferença será sentida pela cidade.
Deputado estadual não administra município e não substitui prefeito. Mas imaginar que a presença parlamentar não interfere na capacidade de uma cidade buscar investimentos seria desconhecer o funcionamento real da política estadual.
Um deputado participa da discussão do orçamento, apresenta emendas, acompanha secretarias, pressiona órgãos estaduais, ocupa comissões, abre portas no governo e transforma determinadas demandas municipais em pauta política estadual.
Imagine agora três deputados fazendo isso.
Ainda que Munir, Jari e Raone pertençam a grupos políticos diferentes — e justamente aí está outro aspecto interessante do resultado — Volta Redonda passa a dispor de três gabinetes, três estruturas parlamentares e três vozes capazes de disputar atenção para os problemas da cidade.
São três possibilidades de articulação em saúde, educação, segurança, mobilidade, infraestrutura e desenvolvimento econômico.
Existe, evidentemente, a possibilidade de competição entre eles. Cada deputado tentará mostrar resultados e assumir protagonismo. Mas até essa competição pode favorecer Volta Redonda: quando três parlamentares disputam quem consegue entregar mais para uma mesma cidade, quem pode terminar ganhando é a população.
Dentro desse resultado, merece capítulo especial a atuação do prefeito Antonio Francisco Neto.
Neto não foi um apoiador protocolar de Munir. Entrou politicamente na campanha.
O deputado chegou à reta eleitoral reunindo o apoio declarado de dez vereadores de Volta Redonda, praticamente metade da Câmara Municipal, enquanto Neto apareceu ao lado de Munir em agendas regionais e acompanhou pessoalmente a apuração junto ao candidato.
Portanto, a votação de 52.808 votos de Munir tem também uma leitura inevitável sobre Neto.
Foi uma demonstração de força.
Prefeitos costumam ser fortes quando disputam a própria eleição. O teste mais difícil acontece quando precisam transferir prestígio para outra pessoa. Neto colocou parte importante de sua estrutura política, de seus aliados e de seu próprio nome na campanha de Munir.
E conseguiu o resultado.
Mais do que manter um aliado na Assembleia, Neto demonstrou que continua possuindo capacidade de organização eleitoral e influência sobre uma parcela significativa do eleitorado e das lideranças políticas da cidade.
Para quem observa desde já os movimentos políticos dos próximos anos, esse talvez tenha sido um dos recados mais importantes das urnas em Volta Redonda.
Em Barra Mansa aconteceu movimento semelhante.
Luiz Furlani assumiu publicamente o apoio a Rodrigo Drable. Participou do lançamento da campanha, esteve em mobilizações eleitorais e chegou a defender abertamente a necessidade de Barra Mansa possuir um deputado estadual identificado diretamente com o município.
Havia uma lógica política bastante clara.
Rodrigo governou Barra Mansa durante oito anos e foi sucedido por Furlani. A eleição de Drable criaria uma espécie de eixo político: Furlani na prefeitura e Rodrigo na Assembleia Legislativa.
Para uma administração municipal, seria uma combinação poderosa.
Não aconteceu.
E seria superficial colocar toda a responsabilidade sobre Furlani. Rodrigo teve uma votação estadual relevante e o sistema proporcional produziu uma circunstância na qual candidatos com votações próximas podem terminar em situações completamente diferentes.
Mas política também é resultado.
Neto apostou em Munir e terminou a eleição com seu principal aliado novamente deputado.
Furlani apostou em Rodrigo e, apesar dos 28 mil votos conquistados, Barra Mansa terminou sem a cadeira.
Essa comparação inevitavelmente será feita.
A resposta curta é: politicamente, perde.
Não significa que Barra Mansa ficará abandonada pelo Governo do Estado ou impossibilitada de obter recursos. Prefeitos possuem canais diretos com secretários, governador e outros deputados. Lideranças políticas sem mandato também continuam articulando.
Mas existe uma diferença entre possuir amigos na Assembleia e possuir um deputado cuja sobrevivência eleitoral depende diretamente da sua cidade.
O deputado domiciliado politicamente em determinado município precisa apresentar resultados ali. Precisa retornar à cidade, prestar contas e disputar novamente aquele eleitorado.
Essa obrigação política tem valor.
Volta Redonda terá três parlamentares submetidos, em maior ou menor grau, a essa cobrança.
Barra Mansa não terá nenhum.
Há ainda uma consequência que ultrapassa os limites das duas cidades.
Volta Redonda aumenta substancialmente seu peso na política regional.
Quando alguma grande discussão envolvendo o Médio Paraíba chegar ao Palácio Guanabara ou à Assembleia Legislativa — seja a respeito de hospitais, estradas, segurança pública, transporte, investimentos industriais ou orçamento — três deputados ligados a Volta Redonda poderão participar diretamente da conversa.
Barra Mansa terá que construir essa influência através de alianças.
Essa talvez seja a principal mensagem que as urnas deixaram.
Volta Redonda conseguiu transformar sua força eleitoral em representação institucional.
Barra Mansa demonstrou possuir votos — os mais de 28 mil recebidos por Rodrigo comprovam isso —, mas não conseguiu transformar esses votos numa cadeira.
É uma diferença pequena na matemática eleitoral e enorme na política.
Neto sai dessa eleição fortalecido porque seu principal projeto para a Assembleia funcionou. Furlani, que também se envolveu diretamente no projeto de eleger Rodrigo, terá agora o desafio de compensar a ausência de um representante próprio através da capacidade de articulação de seu governo.
Enquanto isso, Volta Redonda começará 2027 com algo raro para uma cidade do interior: três deputados estaduais diretamente ligados ao município.
Se eles atuarem juntos nas grandes questões locais, Volta Redonda poderá transformar representação eleitoral em investimentos e influência.
Se preferirem disputar entre si, ainda assim a cidade terá três vozes disputando espaço.
Barra Mansa, por sua vez, terá que fazer sua voz chegar ao Rio por outros caminhos.
E, na política, ter que pedir espaço quase sempre é diferente de já possuir uma cadeira à mesa.